Autossabotagem: quando uma parte de nós tenta destruir a outra

“Assim, no curso da vida, o homem adquire muitas condições, assimila muitos personagens, muitos ‘eus’. E cada personagem passa a falar por si, usando ‘eu’ e ‘mim’ ao se manifestar.” 

Jean Vaysse

É fácil perceber dentro de nós algumas de nossas várias identidades: somos pais e mães, somos filhos, somos gestores e colaboradores. Somos quem consome e quem produz. Cada um desses — e de outros tantos papeis — formam o grande quadro que, quando completo, é nossa identidade. É fácil perceber como cada papel pode entrar em conflito com o outro, como por exemplo o empresário com suas responsabilidades pela subsistência de tantos colaboradores e da própria empresa com a de pai que precisa dar atenção de qualidade aos filhos.

Em alguns casos, esse conflito interno é evidente, e entendido o jogo mental, é possível lidar melhor com ele. Mas, na maioria das vezes, atendemos a um dos nossos lados sem nem perceber, tendo comportamentos e reações que são contrárias as que desejaríamos racionalmente. Chamamos isso de autossabotagem.  

Para piorar, além dessas várias identidades mais evidentes, temos também outros conflitos entres ‘eus’ internos menos evidentes que podem sabotar ainda mais nossas intenções. Vou explicar melhor: da mesma forma que você tem dentro de si as personas competindo pela liderança — o pai e o empresário, por exempo –, também tem como pano de fundo o procrastinador e o proativo, o sedentário e o esportista, o acolhedor e o egoísta, além de tantos outros aspectos antagônicos de nós mesmos.  

Digamos que você é um empresário e vai a um curso sobre empreendedorismo. Passa horas ouvindo sobre como fazer sua empresa aumentar o faturamento, assiste a palestra sobre alta performance, conversa com outros participantes que contam sobre suas vitórias e, com isso, você vai dando força ao seu ‘eu’ proativo. Então, começa a falar para si mesmo que nunca mais irá procrastinar, pensa em todas as vezes que foi ao cinema em vez de analisar a contabilidade da empresa, pensa nas inúmeras vezes que ficou na internet em vez de terminar o projeto do novo produto e define que, a partir do dia seguinte, será mais focado em seu sucesso e na busca por seus objetivos.

E assim você faz: acorda cedo, faz exercícios físicos, toma café já lendo os relatórios do financeiro, manda mensagens antes das 7 da manhã para seu contador, sua agência de marketing, seu chefe de produção e para o RH. Chega na empresa e marca várias reuniões com fornecedores e clientes.

Isso continua por alguns dias… mas aí você abre suas redes sociais e vê fotos dos amigos se divertindo, o projeto novo encontra obstáculos, a agência diz que uma nova estratégia vai custar mais do que você esperava, a contabilidade se torna chata, os exercícios físicos deixam seu corpo dolorido porque você nunca fez e… desculpas e mais desculpas. Aí basta o pessoal te ligar convidando para viajar no final de semana e você diz a si mesmo que merece e vai. Afinal, são só dois dias. Não vai arruinar sua “nova vida”, vai?

Mas na segunda-feira, a rotina volta ao original, você acorda apenas a tempo de sair correndo para a empresa, empilha os relatórios do RH para depois, vai visitar a produção e resolve mudar levemente seu produto, nada importante, mas que vai te distrair o dia inteiro sem realmente pensar na estratégia empresarial… voltando ao estado de procrastinação daquilo que não gosta, mas que é necessário.  

E assim continua, de tempos em tempos, deixamos que um dos vários ‘eus’ tome a dianteira. Enquanto não definimos completamente qual de nossos aspectos reforçamos e buscamos em nós as razões para essa escolha, os valores pessoais e crenças envolvidos nesse novo comportamento, vamos variando entre um e outro aspecto interno. E, principalmente, sabotando todos os nossos próprios esforços para alcançar nossos objetivos.

Minha dica é: alimente a identidade desejada, encontre o motivo pelo qual essa identidade é a mais desejada e relembre todos os dias qual seu sonho de vida. 😉

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ROSANE SAMPAIO

ROSANE SAMPAIO

Especialista em coaching pessoal, profissional, executivo e de equipes. Palestrante, analista comportamental e hipnoterapeuta, com qualificação de practitioner em Programação Neurolinguística.